Quando ela morreu da última vez, foi uma morte dolorida. Desde então, não vivia mais inteiramente. E por isso, criou a resolução de que não morreria de novo, nem mais. Para atingir o objetivo, decidiu que usaria a estratégia “o ataque é a melhor defesa”. Ao menor sinal de risco de morte, mataria quem a ameaçasse.
Ele nunca tinha morrido. Tampouco tinha matado. Era jovem de mais para isso. Na verdade, tinha a mesma idade que ela, mas o coração é que era jovem, ingênuo ainda.
Quando se encontraram, ela, fiel ao plano, levantou a ficha do suspeito. O curioso é que ela não encontrava nada que desabonasse o rapaz. Considerou o fato perspicácia dele, o que a deixou intrigada. Mas ele confessava tudo, conforme ela o interrogava, com uma verdade inegável nos olhos e nas palavras. Nunca tinha se deparado um suspeito tão inocente quanto aquele. Contraditório, pensava, sempre partindo do princípio de que todos eram culpados até que se provasse o contrário.
Ele achava divertido o jeito que ela falava com ele, disfarçando. Achava novo. Nunca tinha sido suspeito número um de alguém e achou que era normal aquele interrogatório todo. Ele sabia o que ela queria, mas ele, pela vida dos filhos ainda não nascidos, não tinha como entregar o que ela procurava. Apesar de tudo, queria ir mais fundo.
Assim foram seguindo.
Um dia, em um momento de fraqueza alcoólica dela, ele tentou virar o jogo. Bastou para que ela sentisse a ameaça.
Então, ele quis saber por que só podia ver a superfície. Ela explicou que existiam coisas que só quem já havia visto a morte sabia. Ele pediu para ela ensinar. Aquilo a deixou nervosa.
Ela concluiu:
- Com tanta morte, talvez eu é que não saiba mais viver. E você, quantas vezes quer morrer?
- Quantas forem preciso para provar minha inocência.
- Depois da morte, ninguém volta inocente. Acredite, eu sei.
-Vou ter que arriscar.
Então ela atirou.
Adorei Bielefeld!
bjs
Robs