Certa vez ela brigou feio com o tempo. Briga dessas de gritaria e quebra-quebra. Ela acusava o tempo de passar muito rápido, trazer muitas responsabilidades e não deixar uma brecha para ela fazer, algum período do dia que fosse, algo que ela realmente queria fazer antes de morrer.
Ele, sério, impetuoso e de poucas palavras não negou as acusações, mas tentou dizer à ela que de nada adiantaria a briga. Diante da teimosia dela, não houve outra solução, então acabaram brigados, um para cada lado.
Ela se achou muito esperta quando quebrou todos os relógios da casa e do trabalho. Não olhava para eles na rua e nos lugares públicos. Também queimou os calendários e agendas. Agora ela fazia o tempo. Dormia a hora que queria, jantava de dia, tomava café a noite, ia pra festa na segunda-feira, trabalhava no domingo, ia para a academia só de noite e no cinema de tarde.
O tempo continuava lidando com ela com sua infinita indiferença aos desejos humanos. Mas à ela parecia que quanto mais ela lutava, mais ele lhe roubava as horas, os dias e às vezes até semanas. Quando viu, nem sabia mais há quanto tempo tinha brigado com o tempo. Um dia ela acordou e chorou muito.Chorou toda a raiva de todos os filmes, livros e viagens que não conseguiria ver, ler e fazer até o fim da vida. Mas achou melhor fazer as pazes com o tempo, assim, tentaria negociar umas horinhas livres, alguns dias de prazer.
O tempo era sim impetuoso, mas não era malvado. Ele era assim, denso, por essência. Não guardou mágoa dela e aceitou o pedido de desculpas.
Ela passou a administrar o tempo. Aceitou que ele passa rápido mesmo então não iria desperdiçá-lo. Entendeu que tudo há seu tempo e passou a realizar as responsabilidades com prazer. Às vezes sentia saudade do tempo que o tempo parecia não passar tão rápido e do tempo que parecia que ela tinha todo o tempo do mundo.
O tempo, muito orgulhoso da mudança da menina, resolveu dar-lhe um presente.
Foi assim que ele criou a nostalgia.