Cores

Me parece injusto e egoísta que algumas pessoas precisem roubar as cores das outras para pintarem suas próprias vidas. Mas acho que na verdade, isso é só triste.

Os que tem cor por si mesmos, nunca ficam cinzas por muito tempo.

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Meu garoto faz caixões

Estou numa fase super Florence and the Machine. Gosto muito da banda, das músicas. E daí que tem essa música aí. E ela sinceramente, entre as outras do álbum Lungs, fica meio apagadinha até…a batida constante, a voz suave, acho que difere das demais, mais emotivas, talvez.

My boy builds coffins with hammers and nails
Meu garoto faz caixões, com martelos e unhas
He doesn’t build ships, he has no use for sails
Ele não constrói barcos e ele não serve para vendas
He doesn’t make tables, dresses or chairs
Ele não faz mesas, guarda-roupas ou cadeiras
He can’t carve a whistle cause he just doesn’t care
ele não pode entalhar um apito, porque ele simplesmente não liga
My boy builds coffins for the rich and the poor
Meu garoto constrói caixões para os ricos e para os pobres
Kings and queens them all knocked on his door
Reis e rainhas, todos eles bateram à sua porta
Beggars and liars, gypsies and thieves
Pedintes e mentirosos, ciganos e ladrões
They all come to impact he’s so eager to please
Todos eles vieram e ele está tão ansioso para agradar
My boy builds coffins he makes them all day
Meu garoto contrói caixões, ele os faz o dia todo
But it’s not just for work and it isn’t for play
Mas não é só por trabalho e também não é para diversão
He’s made one for himself
Ele fez um para ele mesmo
One for me too
Um para mim
One of these days he’ll make one for you
E um dia desses ele fará um para você também
My boy builds coffins for better or worse
Meu garoto constrói caixões, para o melhor ou pior
Some say its a blessing, some say its a curse
Alguns dizem que é uma benção, outros que é uma maldição
He fits them together in sunshine or rain
Ele os constrói faça chuva ou faça sol
Each one is unique, no two are the same
Cada um é único, não há dois iguais
My boy builds coffins and i think it’s a shame
Meu garoto faz caixões e eu acho uma pena
That when eachones been made, he can’t see it again
Que quando eles ficam prontos, ele jamais os volta a ver
He crabs everyone with love and with care
Ele esculpe cada todos eles com amor e carinho
Then its thrown in the ground and it just doesn’t fit
E depois é jogado no chão e simplesmente não combina
 My boy builds coffins he makes them all day
Meu garoto constroi caixões, ele os faz o dia todo
But it’s not just for work and it isn’t for play
Mas não é pelo trabalho e também não por diversão
He’s made one for himself
Ele fez um para ele mesmo
One for me too
Um para mim também
One of these days he’ll make one
E um dia desses ele fará um para você
Mas eu gosto dela. Porque acho a letra dela simplesmente demais. Não sei porque, mas para mim essa música tem todo um contexto, não diria religioso… que acho que trata da vida, apesar de falar de alguém que faz caixões. Acho que mostra como cada um tem uma vida única, só sua. Assim como os caixões que ele constrói. Acho que a música diz que não importa quem você seja, rico, pobre, ladão, cigano, rei, rainha, nem quão requintada seja sua vida. Que não importa se você é uma pessoa cheia de complexos ou que leva a vida numa boa, ou muito inteligente, ou diferente dos outros, porque na verdade, todos vamos para acabar enterrados.
Mas ao invés de me deixar pra baixo, quando ouço a música sempre me vem uma mensagem na cabeça. Viva agora e como achar que deve.
Alguém mais vê essa música assim?

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Por cima do ombro

Quando ela morreu da última vez, foi uma morte dolorida. Desde então, não vivia mais inteiramente. E por isso, criou a resolução de que não morreria de novo, nem mais. Para atingir o objetivo, decidiu que usaria a estratégia “o ataque é a melhor defesa”. Ao menor sinal de risco de morte, mataria quem a ameaçasse.

Ele nunca tinha morrido. Tampouco tinha matado. Era jovem de mais para isso. Na verdade, tinha a mesma idade que ela, mas o coração é que era jovem, ingênuo ainda.

Quando se encontraram, ela, fiel ao plano, levantou a ficha do suspeito. O curioso é que ela não encontrava nada que desabonasse o rapaz. Considerou o fato perspicácia dele, o que a deixou intrigada. Mas ele confessava tudo, conforme ela o interrogava, com uma verdade inegável nos olhos e nas palavras. Nunca tinha se deparado um suspeito tão inocente quanto aquele. Contraditório, pensava, sempre partindo do princípio de que todos eram culpados até que se provasse o contrário.

Ele achava divertido o jeito que ela falava com ele, disfarçando. Achava novo. Nunca tinha sido suspeito número um de alguém e achou que era normal aquele interrogatório todo. Ele sabia o que ela queria, mas ele, pela vida dos filhos ainda não nascidos, não tinha como entregar o que ela procurava. Apesar de tudo, queria ir mais fundo.

Assim foram seguindo.

Um dia, em um momento de fraqueza alcoólica dela, ele tentou virar o jogo. Bastou para que ela sentisse a ameaça.

Então, ele quis saber por que só podia ver a superfície. Ela explicou que existiam coisas que só quem já havia visto a morte sabia. Ele pediu para ela ensinar. Aquilo a deixou nervosa.

Ela concluiu:

– Com tanta morte, talvez eu é que não saiba mais viver. E você, quantas vezes quer morrer?

– Quantas forem preciso para provar minha inocência.

– Depois da morte, ninguém volta inocente. Acredite, eu sei.

-Vou ter que arriscar.

Então ela atirou.

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Perplexidade

Parou o carro na subida, por causa do farol. Mas depois, não conseguiu sair mais. Indiferente às buzinas que soavam, à luz verde que sinalizava, ficou parado, estático. Não ouvia os xingamentos, não via os gestos e pela perplexidade do que acabava presenciar, vindo de alguém de quem tal atitude não esperava, ficou lá, parado na subida. Não queria soltar o freio e acelerar, soltando a embreagem. Com medo do carro voltar pra trás, mas sem coragem também de seguir em frente.

para todos aqueles que alguma vez já ficaram perplexos com a a atitude tão errada de alguém
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Como troféu

Como de costume, ela saiu atrapalhada e correndo e nem viu quando seu crachá caiu na rua. Só se deu conta da perda quando voltou para a empresa. Por questões de segurança, avisou imediatamente o descuido.

Ele também saiu para almoçar. E qual a surpresa ao achar no chão, caído, justamente o crachá dela, a quem há alguns anos havia deixado sem maiores explicações. O improvável acontece.

Pegou o crachá, olhou o nome e a foto que era a mesma de quando se haviam conhecido. Guardou-o no bolso, pensativo.

Estava recém-solteiro, mas ainda levava um pouco da vergonha pela falta de dignidade por não terminar o relacionamento direito. Mas o acaso assim, lhe batendo a porta, pareceu uma oportunidade.

Esperou o fim do dia e então ligou para ela. Ainda tinha seu telefone, embora a tivesse deixado, pois pensava “Vai saber o amanha. Vai que bate saudades”. Enquanto isso era fácil não ligar.

Ela que diferentemente dele tinha deletado o telefone para não cair na tentação de ligar e dizer boas verdades bêbada, viu um número desconhecido e atendeu.

– Alô?

– Gabi?

– Sim, quem é?

– Diego, tudo bem?

– Diego da onde? – enquanto pensava: “aquele que me deixou em pedaços?”.

– É, sou eu, Gabi, Diego, amigo da Bel – disse, enquanto pensava “Diego, aquele que nunca mais ligou, simplesmente”.

– Ah. Oi. – respondeu sem entusiasmo. A esse passar do tempo, qualquer entusiasmo, qualquer emoção, boa ou ruim já havia se desfeito.

– Você perdeu o seu crachá hoje?

– Ah…. sim!?

– Pois é, acredita que eu encontrei ele na calçada quando saí pra almoçar. Achei engraçado ter encontrado e ver que era justamente seu.

“Engraçado é sua cara de pau de me ligar agora, com essa desculpa”, pensou – Mundo pequeno, né – respondeu.

– É… então, a gente podia se encontrar pra eu te devolver, a gente aproveita, bate um papo.

– Esse crachá – disse enquanto pensava: “como meu coração”, e continuando –  não me serve mais de nada. Cancelei e pedi outro. Guarda pra você, como troféu.

Bateu o telefone.

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O fim do romantismo profissional

Então que estava há tempos pensando sobre o que escrever aqui e por mais ideias que me viessem, acho que estou com bloqueio criativo, achando que nada do que eu escrever será relevante. E daí, que um dia desses no almoço com uma amiga, falando sobre trabalho, me escapou uma “máxima” que me soou como título de texto e me inspirei: “é, acho que é o ‘fim do romantismo profissional’”, foi o que eu disse.

Porque tem uma crise sim. Não é só comigo, mas com as pessoas com quem converso. Somos jovens, mas não somos mais recém-formados. Também não temos vasta experiência. Mas alguma coisa, sabemos. Estamos tentando, como bolas de gude numa caixa de madeira, nos encaixar em nosso devido espaço para parar de ficar esbarrando por todo o canto.

Vontade de experimentar coisas novas, misturada com o medo de largar as boas coisas velhas, em alguns casos, decepção com o ambiente profissional ou percepção de que aquilo que aprendemos na faculdade nem sempre vai se aplicar na vida real, em outros, dificuldade de conseguir mudar, tudo isso (ou cada coisa) pode ser o estopim da crise.

Este é o fim do romantismo profissional. O fim de achar que nós, ainda meros peões no tabuleiro do corporativismo podemos mudar o mundo organizacional com nossas ideias ainda amadoras. Vamos entendendo que não adianta muito nadar contra a maré. Que a melhor saída é pegar jacaré na onda até chegar na areia. O fim do romantismo profissional não é a mesma coisa que desmotivação. E muito menos um princípio revolucionário anti-corporativista. É mais como cair na real que não existe tal coisa como o trabalho perfeito. É que todos os lugares têm coisas boas e coisas ruins. É que todos os tipos de trabalhos trazem suas satisfações e suas angústias.

O fim do romantismo profissional em nada tem relação a não se dizer mais o que pensa, no que acredita ser melhor para uma situação. Tem mais a ver com dizer e entender, que se o dito não for acatado, isso não é pessoal. O fim do romantismo profissional significa que vamos aprendendo a lidar com o trabalho como lidamos com o amor, adorando as qualidades e aceitando os defeitos.

Alguém mais aí está passando por isso?

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Aos viajantes

Viajar é muito bom. Acho que poucas pessoas discordam disso. Mesmo que seja para a cidade vizinha, viajar é respirar um ar novo, ver uma paisagem diferente, pessoas de sotaques diferentes, idiomas diferentes. Mais, pessoas com ideias diferentes. Viajar é sair da zona de conforto. É confrontar expectativas. É desconhecer o próximo passo. E aprender que ele é inevitável. Às vezes meio de tropicão, levando a lugares desconhecidos, mas ainda assim inevitável. Viajar, mesmo que acompanhada, em turma, é um auto-conhecimento. É olhar para cima, para os prédios mais antigos, os mais novos, os mais altos, as árvores mais sólidas, as paisagens mais inusitadas e entender a pequenez dos nossos anseios diante da grandiosidade do mundo. Também é o oposto, é ver as diferenças, aceitar as culturas, as línguas, as cores, os cheiros e compreender nosso pequeno papel nessa miscelânea toda que se chama vida. É aprender sobre si. Aos viajantes, só desejo uma boa viagem. O resto sempre vem junto.

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